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SÃO PAULO EM ALERTA
Informações inéditas da polícia de SP mostram que periferia tem mais crimes contra a vida e áreas ricas, mais crimes contra o patrimônio
Jardim Herculano, Capão Redondo e Parque Santo Antônio formam "triângulo da morte'; zona oeste tem mais furto e roubo de veículos
ANDRÉ CARAMANTE
EVANDRO SPINELLI
DA REPORTAGEM LOCAL
Dados inéditos do setor de inteligência da polícia de São Paulo, obtidos pela Folha, revelam como se distribui, distrito a distrito, a criminalidade pela cidade de São Paulo.
Os números, do segundo trimestre deste ano, mostram que a violência se espalha pela cidade, mas segue lógica própria.
Os crimes contra vida (homicídios e estupro) atingem, principalmente, as regiões mais pobres. Os crimes contra o patrimônio (roubos, furtos e latrocínio) se concentram na região central e em bairros mais ricos.
No primeiro caso, destaca-se o chamado "triângulo da morte", formado pelas regiões dos distritos policiais de Jardim Herculano, Capão Redondo e Parque Santo Antônio, onde 31,5% dos domicílios têm renda de até três salários mínimos.
Na área formada por essas três delegacias, que inclui bairros como Jardim Ângela e Jardim São Luis, ocorreram 44 homicídios nos meses de abril, maio e junho -14,7 por mês em média-, ou seja, 14,5% dos casos da cidade no período (303).
Crimes patrimoniais
Dos chamados crimes contra o patrimônio, o furto de veículos é uma das principais referências para a lógica da violência na cidade.
A análise dos números da polícia permite dizer que esse tipo de crime é mais freqüente na área formada por bairros como Perdizes, Lapa e Pinheiros, todos na zona oeste, onde 52,3% das residências têm renda superior a 20 salários mínimos.
Essa mesma área da zona oeste, aliada ao centro e aos Jardins, é responsável ainda pelos mais altos índices de outros furtos (celulares, carteiras, arrombamentos em residências etc.) e roubos (praticados sob grave ameaça, com a utilização de arma, por exemplo). Na classificação da polícia, os Jardins estão na área central.
Os números do Mapa da Violência fazem parte da base de dados da CAP (Coordenadoria de Análise e Planejamento), órgão da Secretaria da Segurança Pública que estuda a criminalidade a fim de adequar a utilização das forças de segurança no policiamento da cidade.
Desde 2002, os governos Geraldo Alckmin (PSDB), Cláudio Lembo (PFL, hoje DEM) e José Serra (PSDB) divulgam só os dados macros da cidade, sem dividi-los por distritos policiais ou seccionais, como a Folha os apresenta nesta edição.
Ao longo desse período, a reportagem pediu várias vezes essas informações à secretaria por considerá-las de interesse público, mas não as conseguiu.
Os dados que a Folha revela não incluem crimes registrados em delegacias especializadas -como o Deic (roubos) e o Denarc (drogas)-, o que pode causar diferenças em relação às informações gerais do site da secretaria (www.ssp.sp.gov.br/estatisticas).
Entre 2004 e 2007, o governo paulista chegou a divulgar estatísticas criminais erradas. Só em crimes patrimoniais como seqüestro, roubo a banco, de veículos e de carga, mais de 16 mil ocorrências ficaram de fora da contagem oficial.
Outros crimes
Os números apontam ainda as regiões com maior incidência de roubo a banco, roubo de carga, estupro e tráfico de drogas. Roubos a banco estão concentrados em uma área da zona sul (Santo Amaro, Ibirapuera, Vila Clementino, Campo Limpo e Cidade Ademar) e em um trecho da zona oeste (Perdizes, Pinheiros e Itaim Bibi). Juntos, os bairros têm 50% dos roubos a banco entre abril e junho.
Os de carga acontecem predominantemente nas áreas próximas às rodovias Régis Bittencourt, Presidente Dutra e Fernão Dias, além da área central, que inclui as regiões de comércio popular do Brás e ruas 25 de Março e Santa Ifigênia.
Os estupros ocorrem principalmente nos extremos da cidade. O tráfico, na zona norte.
Em Perdizes, dez pessoas ficam sem o carro por dia
Perdizes, Pinheiros e Lapa detêm recorde de furtos de veículos em São Paulo
No primeiro semestre deste ano, 5.432 motoristas da zona oeste tiveram os carros furtados ou roubados; na cidade, foram 21.670 casos
LAURA CAPRIGLIONE
DA REPORTAGEM LOCAL
Perdizes, Pinheiros e Lapa, bairros de classe média na zona oeste, detêm um recorde oneroso. Locais em que mais se roubam e furtam veículos, basta às seguradoras conferir os CEPs residenciais dos proprietários dos veículos. Se os números corresponderem a algum dos três bairros, automaticamente, o custo do seguro para o consumidor sofre acréscimo que pode chegar a 20% sobre o valor pago em regiões menos atacadas pelos chamados "puxadores" (ladrões) de carros.
As seguradoras chamam a isso de "gravame". Tem a ver com a -atenção para a expressão-chave- "alta sinistralidade", ou alta incidência de roubos e furtos dessas regiões.
No primeiro semestre deste ano, 5.432 motoristas da zona oeste ficaram com as chaves de seus carros penduradas nas mãos. Foram 29,8 veículos por dia; ou um sem-carro a cada 48 minutos. Toda a cidade de São Paulo registrou, no mesmo período, 21.665 carros furtados -119 por dia, ou um sem-carro a cada 12 minutos.
O campeão 23º DP, em Perdizes, teve 885 casos no segundo trimestre -média de dez por dia. Em seguida, o 14º DP (Pinheiros), que inclui a boêmia Vila Madalena, e 7º DP (Lapa), tiveram, respectivamente, 589 e 472 registros.
O 30º DP (Tatuapé), na zona leste, vem em quarto, com 380.
A supervisora administrativa Neuza de Almeida Pereira, 56, moradora na zona oeste, onde também trabalha, esteve anteontem à noite no DP de Perdizes. Foi lavrar boletim de ocorrência sobre o furto de seu Chevrolet Celta, preto, quatro portas, quase zero-quilômetro.
Todo dia, Neuza parava o carro na mesma rua. Ontem, o Celta, que ela comprou por R$ 26.000, se desmaterializou. "Não acreditei. Dei uma volta no quarteirão, para ver se o encontrava. Em vão." Taxistas de um ponto próximo disseram a ela que ali "é um festival", referindo-se à freqüência de furtos. "Eu até achava estranho que fosse tão fácil parar naquela rua, enquanto outras pareciam estacionamento de shopping em época de Natal. Descobri por quê", disse Neuza, que já "perdeu" outro carro, em 1995.
A indústria de seguros e de recuperação de veículos não pára de crescer. Na sede da Tracker, no Campo de Marte, ao lado do heliporto, um mapa imenso da capital tem milhares de fitinhas vermelhas e amarelas pregadas com alfinetes.
As fitinhas vermelhas concentram-se na zona oeste. Em cada uma, está escrito o modelo do carro, o ano de fabricação, o número do protocolo da comunicação de roubo ou furto.
Cada uma está pregada no local de onde o veículo foi levado. São tantas que forram o mapa como aqueles tapetes peludos. As fitinhas amarelas espalham-se por toda a cidade. Mostram onde o carro foi recuperado.
A Tracker é uma empresa caçadora de carros roubados. Há quatro meses, o jornaleiro Claudio Manuel Ferreira, 36, morador da Vila Sônia (zona oeste) usava a Parati da mãe. Parou o carro por dois minutos na porta de casa -foi pegar um agasalho. Quando voltou, cadê?
Só que o carro de Ferreira estava equipado com um emissor de radiofreqüência, acionado a partir de telefonema. Antenas espalhadas pela cidade captaram o bip-bip; computadores localizaram o carro em um mapa; do Campo de Marte um helicóptero levantou vôo; motos e carros saíram no encalço do carro. "Em meia hora, me telefonaram para eu ir ao DP, que o carro estava sendo levado para lá. O boletim de ocorrência ainda estava sendo lavrado e eu já sabia onde estava a Parati."
Segundo o diretor nacional de operações da Tracker, o militar da reserva do Exército colombiano Carlos Alberto Betancur Ruiz, o emissor de radiofreqüência emite ondas que podem ser rastreadas mesmo que o veículo esteja em uma garagem subterrânea, em uma caixa fechada -o que o torna particularmente útil em casos de roubos e furtos.
Segundo Betancur, a empresa mantém antenas, aviões, helicópteros e equipes de terra em toda a América do Sul. "Conseguimos recuperar nove em cada dez veículos roubados ou furtados." Mas a eficiência da operação, diz ele, depende de rapidez. "As quadrilhas desmontam um carro em menos de 30 minutos."
Zona oeste é recordista em latrocínios
Dos 29 casos da capital paulista, nove foram registrados na região no primeiro semestre deste ano
DA REPORTAGEM LOCAL
A rua Mário, na Lapa, zona oeste de São Paulo, é de casas de um lado. Do outro lado, um muro grande, todo grafitado, delimita território de uma antiga escola, hoje uma coordenadoria de ensino. Foi lá que, no ano passado, três garotos de 18 anos, que tentavam levar o carro da família, roubaram a vida do físico da USP Georgi Lucke, que tinha 71 anos.
"Se ele estivesse aqui, a casa estaria cheia. Georgi era muito falante, tocava piano, fazia poesia -meu marido era muito inteligente e muito culto. Agora, ficou esse vazio e o medo." As lembranças são da professora Ignez Jorge Lucki, 67, casada desde 1968 com o físico, nascido na Ucrânia e uma das maiores autoridades brasileiras em controle de radiatividade e energia nuclear.
A família Lucki mora desde 1968 no sobrado. Foi lá que os quatro filhos do casal -Georgi Júnior, Flávio, Ricardo e Natália- foram criados.
Naquela noite de maio do ano passado, Ignez despedia-se da filha Natália, na porta de casa. Os dois cachorros enormes da casa, os pastores alemães Thor e Milly, divertiam-se na rua, enquanto mãe, filha e genro dirigiam-se ao carro dela, conversando. Da esquina, por volta das 20h, vinham três rapazes, caminhando e conversando. Tudo tranqüilo.
Mas os cachorros começaram a latir, nervosos e agressivos. A mãe, então, recolheu os animais, que ficaram atrás dos muros altos da residência.
"Obrigado, dona!", chegou a dizer um dos meninos. E o outro completou: "Mas isso é um assalto". "Passa a chave, passa a chave", disse, referindo-se à chave do carro de Natália.
Armas em punho, um agarrou a professora, chacoalhando-a enquanto ela gritava por socorro. Outro deu uma gravata na filha. O terceiro incumbiu-se de render o marido dela.
O professor Lucki, que havia chegado da USP e jantava na cozinha, correu assustado para fora da casa. Foram três tiros. Um, na axila, perfurou a veia aorta. Já caído no chão, foi alvejado na cabeça. A bala parou no maxilar.
Meia hora depois, Lucki morreu no hospital, o pulmão cheio de sangue, asfixiado. Os jovens fugiram, levando consigo a bolsa da filha com cartões, documentos e celular.
No primeiro semestre de 2007, o caso do professor foi um entre 16. No primeiro semestre de 2008, houve um acréscimo de 81%. As vítimas foram 29.
Isoladamente, no primeiro semestre de 2007, duas pessoas perderam a vida em assaltos na zona oeste. Em 2008, esse número saltou para 9 pessoas, fazendo a região a recordista.
No caso do professor Lucki, a polícia chegou 10 minutos depois do crime. Três suspeitos foram presos em janeiro em São Paulo.
"Minha mãe comportou-se como uma cidadã respeitadora dos direitos dos outros. Ela recolheu os cachorros para que não incomodassem os passantes. E o que recebemos foi dor e sofrimento. Agora, eu diria: "Pega!" O medo tomou conta de nós", diz Ricardo. Na porta da casa, o velho Dodge do professor segue estacionado. (LC)
"Triângulo da morte", no extremo sul, tem 14,5% dos homicídios
Foram 44 assassinatos no local no segundo trimestre deste ano; região engloba Capão Redondo, Jd. São Luís e Jd. Ângela
Zona sul, como um todo, responde por 230 dos 630 homicídios registrados na capital; mesmo assim, área reduziu mortes em 9,4%
LUIS KAWAGUTI
DA REPORTAGEM LOCAL
Na escola estadual da rua Dona Virginia, no Jardim São Luís, na zona sul, o assunto dos pais de alunos anteontem era o homem morto com dois tiros no peito a 300 metros da instituição. O cadáver, de um desconhecido, reforça as estatísticas da polícia, segundo as quais o extremo sul é a região mais violenta de São Paulo com 177 homicídios no primeiro semestre deste ano -ou seja, 28% dos assassinatos ocorridos na cidade.
Segundo as estatísticas do governo de São Paulo, ocorreram 630 assassinatos na capital no primeiro semestre -cerca de 3,4 mortes por dia. Desse total, a Secretaria da Segurança Pública não soube definir onde três casos ocorreram.
A zona sul como um todo (o extremo sul e bairros mais próximos do centro, como Santo Amaro e Brooklin) ficou em primeiro lugar, com 230 casos registrados. A segunda região em número de homicídios foi a zona leste (198), seguida pela zona oeste (77), zona norte (74) e centro (48).
"Triângulo da morte"
O corpo do desconhecido foi encontrado às 4h de anteontem por uma testemunha anônima na região do 100º Distrito Policial (Jardim Herculano), uma das três delegacias que formam o "triângulo da morte" -que registraram os maiores índices de homicídios no último trimestre.
Os outros dois vértices do triângulo são o 47º DP (Capão Redondo) e o 92º DP (Parque Santo Antônio). Eles englobam, de forma aproximada, Capão Redondo, Jardim São Luís e Jardim Ângela, regiões que, segundo estatísticas deste ano da Prefeitura de São Paulo, concentram 261 favelas.
Nessas regiões, entre 27% (Jardim São Luís) e 36% (Jardim Ângela) das famílias sobrevivem com menos de três salários mínimos por mês. Em Perdizes, por exemplo, esse índice não chega a 4%.
Só no triângulo da morte foram registrados no segundo trimestre deste ano 44 homicídios. No mesmo período, em todos os 93 distritos policiais da capital, foram 303 assassinatos, segundo as estatísticas.
Na área do 100º DP, aconteceram 18 casos, na do 47º DP, 14 crimes e, na do 92º DP, 12. O assassinato de anteontem -um dos mais recentes na área do 100º DP- entrará na estatística do 3º trimestre de 2008.
Segundo a polícia, testemunhas ouviram cinco tiros em outro ponto do bairro durante a madrugada; a rua Dona Virgínia, sem pavimentação e repleta de mato e lixo, foi o local escolhido pelos assassinos para se livrar do cadáver sem chamar a atenção de testemunhas.
"Eu moro há 40 anos nesse bairro e sou evangélico. Já vi gente ser morta na porta da igreja. Esse assassinato não é surpresa para a gente", disse o vigilante Celso Nepomuceno, 43, que levava a filha de 7 anos para escola.
Apesar de ser a mais violenta, a zona sul é também a que mais tem reduzido a criminalidade. Em relação ao primeiro semestre de 2007, teve 24 assassinatos a menos neste ano, uma redução de 9,4%. Para a polícia, a tendência -que vem se mantendo- se deve à redução das armas de fogo em circulação desde a entrada em vigor do estatuto do desarmamento, ao fechamento mais cedo de bares e à abertura de escolas para lazer nos fins de semana.
Sé e Santa Ifigênia são as regiões campeãs em furtos
Foram 2.149 casos no 1º Distrito Policial (Sé); na Santa Ifigênia (3º DP), 1.500 casos
Além do centro, a 2ª região onde mais ocorre esse tipo de crime é a zona oeste, com 14.776 casos, o equivalente a 20% dos casos da cidade
Joel Silva/Folha Imagem
Circulação no viaduto do Chá, no centro de SP; delegacia localizada na Sé teve maior número de furtos no 2º trimestre, 2.149
DA REPORTAGEM LOCAL
Com um grande volume de pessoas circulando no horário comercial, o centro é a região de São Paulo que concentra o maior número de furtos na cidade. Segundo estatísticas do governo, foram 16.801 casos no primeiro semestre deste ano na região, o que representa 22,8% dos 73.650 furtos ocorridos em todo município.
No centro, o maior número de furtos acontece na área do 1º Distrito Policial (Sé) - 2.149 casos no segundo trimestre do ano. O segundo lugar no ranking do centro e da cidade fica com a área sob jurisdição do 3º Distrito Policial (Santa Ifigênia), com 1.500 casos no mesmo período.
A área das duas delegacias citadas corresponde aproximadamente aos bairros da Sé e da República, por onde circulam diariamente até 4,5 milhões de pessoas, segundo a Subprefeitura da Sé. A maior parte delas trabalha no centro ou passa por lá, pois o número de moradores é pouco superior a 70 mil.
A segunda região da cidade onde mais acontece esse tipo de crime é a zona oeste, com 14.776 casos (20% dos casos da cidade), local onde predominam bairros de alto padrão. Nessa região, Perdizes é o distrito mais problemático, com 1.335 casos no segundo trimestre (3º no ranking da cidade).
O levantamento do governo mostra que esses crimes acontecem com menor freqüência em áreas mais pobres, como a da 8ª Delegacia Seccional Leste (São Mateus), que teve 4.667 casos no semestre, ou seja, 6% do total da cidade no semestre.
A cozinheira Sueleide Maria da Conceição Santos, 26, que mora em Itaquaquecetuba e vai trabalhar no centro todos os dias, já foi vítima de furto. "Estava na estação de trem do Brás e apareceram várias pessoas. Elas me prensaram e as minhas coisas caíram; quando fui procurar, a bolsa já tinha sumido."
Para tentar diminuir esse tipo de crime, a Polícia Civil investiga quadrilhas de ladrões que atuam no centro e organiza operações contra comércio de contrabando e pirataria, pois áreas com alta concentração de camelôs oferecem boas condições de atuação para batedores de carteiras e ladrões.
Mas os crimes de furto também acontecem na área nobre dos Jardins. O 78º Distrito Policial, responsável pela área, ficou em 8º lugar no ranking de furtos da cidade.
O DP registrou no último trimestre deste ano 1.008 casos de furto, 72 a mais que no segundo trimestre de 2007.
Os dados obtidos pela Folha não contabilizam os casos registrados pelas delegacias especializadas (a do metrô, por exemplo), o que representaria uma diferença de 2.294 casos.
Campo Limpo e Capão lideram em estupros
Bairros, que ficam no extremo da zona sul, tiveram dez casos cada um no segundo trimestre deste ano
DA REPORTAGEM LOCAL
Os extremos de São Paulo nas zonas sul, leste e norte concentram o maior índice de casos de estupro.
No segundo trimestre deste ano foram registrados 166 estupros nos 93 distritos policiais da cidade, sendo 71 casos (42,8%) em 14 delegacias localizadas nos extremos da capital.
Os dados não computam as delegacias especializadas, como as oito delegacias de defesa da mulher. No total da cidade, segundo o site da Secretaria da Segurança Pública, foram 262 casos no trimestre.
O extremo sul teve, somados, 29 casos de estupro no período de abril a junho. Os campeões foram Campo Limpo (37º DP) e Capão Redondo (47º DP), ambos com dez casos cada um. Na delegacia do Jardim Herculano (100º DP), foram cinco casos. O Jardim Miriam (98º DP) contabilizou quatro casos.
As delegacias do extremo leste registraram 23 casos entre abril e junho deste ano. Foram seis casos no Itaim Paulista (50º DP), cinco no Parque do Carmo (53º DP), e quatro nos distritos de Jardim dos Ipês (59º DP), Itaquera (32º DP) e Cohab 2 Itaquera (103º DP).
No extremo norte foram 19 casos no total, seis em Parada de Taipas (74º DP), cinco em Vila Amália (38º DP) e quatro na Vila Penteado (72º DP) e no Jaçanã (73º DP).
A única delegacia no topo do ranking de estupros que não fica em um extremo da cidade é o de Vila Matilde (21º DP, zona leste), com quatro casos.
Na zona sul, as delegacias que aparecem no topo do ranking de estupros surgem também entre as campeãs de homicídios. É o caso dos distritos policiais de Jardim Herculano, Capão Redondo, Jardim Miriam e Campo Limpo. Já nas zonas leste e norte, o estupro é praticamente o único crime que preocupa, com exceção do Jaçanã (zona norte), nono colocado no ranking de homicídios, e Itaim Paulista, sexto na lista de registros de roubo de carga.
Zona sul também reúne tentativas de homicídio
DA REPORTAGEM LOCAL
Assim como ocorre com homicídios dolosos (intencionais), a área do "Triângulo da Morte", no extremo sul da capital e onde estão as 13 delegacias da Polícia Civil da 6ª seccional Santo Amaro, também é a região onde mais se comete tentativas de homicídios.
Dos 580 casos da capital no primeiro semestre, 145 ocorreram na região. Isso representa 25% do total de atentados contra a vida.
Com 86 casos, a região da zona oeste, onde estão os 14 distritos policiais da 3ª seccional, é a segunda onde mais ocorrerem casos de tentativa de homicídio na capital: nos primeiros seis meses deste ano, foram 86 vítimas -14,9% de todos os casos. (AC)
Zona oeste é líder em assaltos a bancos
Região registrou 25 casos no primeiro semestre deste ano, segundo levantamento do setor de inteligência da Polícia Civil
Das 5 delegacias com mais registros, 3 estão na região: 37º DP (Campo Limpo), 15º DP (Itaim Bibi) e 14º DP (Pinheiros), com 3 casos cada
PAULO SAMPAIO
DA REPORTAGEM LOCAL
Além de clientes, a agência do Bradesco do Jardim Peri-Peri, zona oeste, parece estar atraindo a preferência dos criminosos que antes se espalhavam em roubos pela redondeza. Inaugurada há cerca de um ano, foi assaltada três vezes. Na última delas, 15 dias atrás, houve tiroteio, perseguição, atropelamento -e três mortes.
"Tinha muito roubo aqui na região. Aí, eles abriram o banco, os assaltantes vão pra lá", acredita a comerciante Cristina Jardim, 21, que trabalha no armazém do pai, na esquina oposta à da agência; ela diz que já foi assaltada "muitas vezes".
De acordo com levantamento do setor de inteligência da Polícia Civil, a zona oeste é a líder em assaltos a bancos na capital paulista, com 25 registros no primeiro semestre. Das delegacias com mais registros, três estão na região: 37º DP (Campo Limpo), 15º DP (Itaim Bibi) e 14º DP (Pinheiros), com três casos cada.
Em números absolutos, o 11º DP (Santo Amaro), na zona sul, é o campeão de ocorrências, com quatro.
A assessoria do Bradesco diz que a agência está equipada com dispositivos de segurança exigidos pelo Banco Central.
Apesar das vítimas, o evento resultou numa tentativa de assalto. Conforme a polícia, dois dos seis bandidos ficaram presos no detector de metais, por volta do meio-dia. O segurança desconfiou e avisou a um policial de folga que, por coincidência, estava no banco.
Ao perceber o movimento dos policiais, os bandidos reagiram atirando. Seguiu-se uma perseguição. Logo, carros do Grupo de Operações Especiais (GOE) apareceram no local.
A universitária Camila Mateus, 22, vizinha de porta do banco, achou mais prudente assistir pela TV ao que estava acontecendo ao lado de casa. Camila poderia manter o aparelho ligado, mas sem som, já que os ruídos da aterrorizante empreitada ela ouvia em tempo real. "Minha mãe disse que ninguém sairia de casa."
O dono de uma borracharia a menos de 100 m dali tinha acabado de atender um motoqueiro. "Assim que o rapaz foi embora, ouvi barulho de estouro de escapamento. Não parava mais. Pensei: "Esse cara vai acabar com o escapamento'", conta o borracheiro Osvaldo (que não diz sobrenome nem idade), sem atinar que o "barulho de estouro" eram os tiros.
Em frente à borracharia estava o Astra prata que os bandidos usaram para a fuga. Presos no trânsito, a menos de 50 m dali, eles deram um cavalo-de-pau no primeiro cruzamento, pegaram a pista no sentido contrário, resvalaram em uma menina de sete anos que atravessava a rua com a mãe e bateram em um muro. A menina sofreu escoriações leves.
Tiro no vencedor
O primeiro a morrer foi Rafael Ferraz Terra, 23, policial do GOE que estava no banco à paisana. "Ele trabalhou naquela noite, mas acordou antes das 10. Estava esperando dar a hora do rodízio para ir ao banco", conta a mãe de Rafael, a dona-de-casa Walkiria. Criado no Limão (zona norte), Rafael foi o primeiro colocado de 2001 no concurso para investigador policial. Eram cerca de 80 mil candidatos para 300 vagas.
As duas outras vítimas eram os bandidos. Morreram ao final da perseguição, alvejados pelo instrutor de tiros da academia da Polícia Militar Carlos Henrique Mendes Navas, 38, o Caíque, outro policial do GOE de passagem à paisana pelo local.
"A polícia esqueceu um pouco da gente aqui", queixa-se Augusto Ferreira, 23, dono da padaria que fica em frente ao local onde os bandidos rodopiaram para pegar a outra pista.
Fonte: Folha de S.Paulo, 6 de agosto de 2008, páginas: C1, C2,C3, C4, C5, C6
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